A função cognitiva da Literatura Fantástica: o Estranho como uma fonte real de conhecimento

Narrativas fantásticas provocam mais do que fascínio: ao romper com a lógica do cotidiano, essas histórias ampliam a percepção humana, questionam certezas e funcionam como laboratórios de pensamento crítico.

O fantástico, em sua essência, sempre foi um território do estranhamento. Desde o século XIX, com o gótico europeu e o surgimento da narrativa moderna, a literatura fantástica tem desestabilizado o real e suas certezas, provocando o leitor a repensar o mundo.

A teoria clássica apresentada por Tzvetan Todorov (1975) em Introdução à Literatura Fantástica estabeleceu o eixo fundante dessa experiência: o fantástico surge da hesitação entre uma explicação racional e uma sobrenatural para um evento. No entanto, mais do que mero jogo perceptivo, essa hesitação revela um processo cognitivo — uma forma de questionamento epistemológico.

Ao perturbar a lógica do real, o fantástico produz conhecimento ao mesmo tempo em que encanta.

Desta maneira, este artigo propõe discutir a função cognitiva do fantástico, articulando duas tradições teóricas que, embora distintas, convergem na compreensão do papel epistemológico da literatura: o estranhamento formalista (Viktor Shklovsky, 1917) e o sense of wonder (senso de maravilhamento) da ficção científica (Darko Suvin, 1979).

A partir dessa confluência, o fantástico é abordado como uma forma de crítica da percepção e instrumento de conhecimento, capaz de revelar dimensões ocultas do real através do inusitado.

O fantástico salta das páginas | Créditos: Fantalogia

O estranhamento como experiência estética

O conceito de estranhamento (ostranenie) foi introduzido por Viktor Shklovsky (1917) em seu ensaio A arte como procedimento. Para o formalista russo, a arte existe para “tornar as coisas estranhas”, isto é, para interromper a automatização perceptiva da vida cotidiana. Quando a linguagem poética desvia do uso comum, ela força o leitor a ver novamente aquilo que o hábito tornara invisível.

Essa ideia tem consequências profundas para o estudo do fantástico. Toda narrativa fantástica opera, de algum modo, uma desfamiliarização do real: o ordinário é contaminado por uma presença impossível — um espelho que ganha vida, um duplo que se materializa, uma casa que pensa.

E, ao desorganizar a lógica cotidiana, o fantástico reconfigura nossa percepção do mundo.

Rosemary Jackson (1981) observa que o gênero não é uma simples fuga para o imaginário, mas “uma forma de transgressão do realismo burguês”, uma reinterpretação simbólica de seus limites.

Assim, o fantástico cumpre uma função crítica e cognitiva: nos mostra o estranho ao mesmo tempo em que nos ensina a reconhecer o estranhamento latente na própria realidade. O insólito não é um adorno estético, mas um mecanismo de desautomatização, como um tipo de pedagogia do olhar.

O Sense of Wonder e a expansão cognitiva

Enquanto o formalismo russo se concentra na estrutura da percepção estética, a teoria da ficção científica proposta por Darko Suvin (1979) desloca o foco para a função cognitiva da imaginação. Em Metamorphoses of Science Fiction, o autor define o gênero como “ficção de estranhamento cognitivo” (cognitive estrangement).

Diferente do mito ou do maravilhoso, a ficção científica cria mundos estranhos, mas regidos por leis racionais alternativas, permitindo ao leitor comparar criticamente o seu próprio mundo com esse novo universo possível.

Embora Suvin se refira especificamente à ficção científica, sua definição ilumina também o funcionamento do fantástico moderno, uma vez que ambos partilham o impulso de repensar o real pela mediação do irreal. Em vez de propor uma racionalização científica, o fantástico propõe uma racionalização hesitante, onde o inexplicável persiste como interrogação.

A “cognição” do fantástico é, portanto, paradoxal — um saber que nasce da dúvida.

Nesse sentido, o sense of wonder — o sentimento de maravilhamento diante do desconhecido — é tanto uma emoção estética quanto um gesto cognitivo. Ele instiga a curiosidade e desestabiliza o senso comum. Ao contrário de uma fuga da razão, o fantástico converte-se em uma expansão de seus limites, imaginando o impensável para pensar melhor o possível.

A leitura como experimento epistemológico

Tzvetan Todorov, em sua tipologia, distingue o fantástico do maravilhoso e do estranho a partir do grau de hesitação do leitor. Mais do que um efeito narrativo, contudo, essa hesitação torna-se um exercício cognitivo, uma vez que o leitor é convocado a julgar, interpretar, escolher entre hipóteses inconciliáveis. O fantástico se torna, então, uma forma de experimento epistemológico, no qual se testam os limites do que é compreensível.

Umberto Eco (1979), ao discutir o papel do leitor em Lector in Fabula, reforça essa dimensão ativa: compreender uma narrativa é cooperar com a obra, preencher suas lacunas, atualizar seus mundos possíveis.

No caso do fantástico, essa cooperação implica enfrentar a instabilidade da verdade. Ler é pensar o impensável. O leitor não busca apenas compreender o enredo, mas reconfigurar sua própria estrutura de percepção do real.

Assim, o fantástico torna-se um laboratório cognitivo, uma forma simbólica de ensaio mental sobre as fronteiras do possível. Ele produz conhecimento não por via lógica, mas pela metáfora, pela experiência estética e pela incerteza.

Entre a imaginação e a razão

Ao propor o impossível, o fantástico não abandona a racionalidade, mas a desafia. A imaginação fantástica atua como uma hipótese de pensamento, um modo de experimentação simbólica do real.

Farah Mendlesohn (2008) observa que o fantástico pode ser classificado segundo o modo como o sobrenatural se relaciona com o mundo racional: se o invade (intrusive fantasy), se o permeia (immersive fantasy), ou se o confronta (portal fantasy). Em todos esses casos, o fantástico é um espaço de negociação cognitiva entre o que se aceita como real e o que se suspeita como impossível.

A função cognitiva do fantástico, portanto, é dupla:

  • Epistemológica: ao questionar os critérios do real e do verossímil;
  • Ontológica: ao propor novos modos de ser e existir.

Esse duplo movimento de pensar e imaginar é o que torna o fantástico uma ferramenta privilegiada para compreender o próprio processo de conhecimento humano. Ele revela que conhecer é sempre atravessar o desconhecido.

O saber do estranho

O fantástico não é uma negação do real, mas uma forma alternativa de conhecê-lo. Através do estranhamento, ele desautomatiza a percepção; através da hesitação, ele exercita o pensamento crítico; através da imaginação, ele amplia os horizontes do possível.

Em tempos de excesso de familiaridade com o real — quando tudo parece explicável, quantificável, racionalizado —, o fantástico resgata a capacidade de se espantar. Como diria Shklovsky:

A arte existe para devolver a sensação de vida.

No caso do fantástico, essa sensação é o espanto diante do desconhecido. Não um espanto passivo, mas uma força cognitiva que nos impele a compreender.

Dessa forma, o fantástico é, em suma, uma epistemologia do estranho. Um modo de saber que nasce do espanto e culmina na reflexão. E ele nos ensina que todo conhecimento começa onde termina a certeza.

matheusprado.maori@gmail.com | Web |  + posts

Matheus Prado é professor, escritor, cineasta e crítico de cinema. Atualmente cursa um mestrado e Letras, com foco em Literatura. Acredita que a vida é um mar profundo e que devemos nos aventurar além da superfície. Escreveu e dirigiu dois longas-metragens e vários curtas.

Referências Bibliográficas

ECO, Umberto. Lector in Fabula: A cooperação interpretativa nos textos narrativos. São Paulo: Perspectiva, 1986.
JACKSON, Rosemary. Fantasy: The Literature of Subversion. London: Methuen, 1981.
MENDLESOHN, Farah. Rhetorics of Fantasy. Middletown: Wesleyan University Press, 2008.
SHKLOVSKY, Viktor. A arte como procedimento. In: EIKHENBAUM, Boris (org.). Teoria da literatura (Formalistas Russos). Lisboa: Vega, 1970.
SUVIN, Darko. Metamorphoses of Science Fiction: On the Poetics and History of a Literary Genre. New Haven: Yale University Press, 1979.
TODOROV, Tzvetan. Introdução à Literatura Fantástica. São Paulo: Perspectiva, 1975.

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