Há alguns meses, o escândalo envolvendo o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) dominou a esfera pública brasileira. As manchetes falavam em fraudes bilionárias, esquemas prolongados, falhas sistêmicas e prejuízos diretos a aposentados e pensionistas. Na ocasião, a reação foi imediata, gerando revolta do público nas redes, editoriais indignados dos veículos de imprensa e pronunciamentos oficiais do governo prometendo apuração rigorosa e punição. Tudo indicava que se tratava de um daqueles momentos tão comuns no Brasil, quando percebemos que “algo precisa mudar”.
Pouco depois, porém, o tom começou a esfriar. O noticiário fragmentou o problema em detalhes técnicos, disputas administrativas e versões concorrentes. Presidentes anteriores foram envolvidos, culpas foram diluídas e o debate público foi sendo deslocado da pergunta estrutural (como um sistema dessa magnitude permite fraudes recorrentes?) para a busca de responsáveis pontuais, preferencialmente individuais.
Em questão de dias, o escândalo deixou a posição central na agenda. Não houve resolução clara, nem transformação visível. Houve apenas o encerramento narrativo.
Hoje, o tema raramente reaparece. Não porque o problema tenha sido solucionado, mas porque deixou de caber no formato do escândalo. E o caso do INSS não é exceção, mas revela um padrão recorrente da vida pública contemporânea, no qual denúncias explodem, geram choque moral, são relativizadas e, por fim, esquecidas.
O que se perdeu nesse processo não foi apenas atenção, mas inteligibilidade. Quando o escândalo se encerra sem que o problema tenha sido transformado em questão pública durável, o que está em jogo é algo mais profundo. É a forma como a esfera pública lida com o tempo, com a responsabilidade e com o desconforto estrutural.
Não se trata, portanto, de tentar entender por que as pessoas se esquecem dos crimes políticos com tanta facilidade, mas de compreender como certos acontecimentos são rapidamente convertidos em histórias com prazo de validade, enquanto outros, que são mais lentos, mais difusos e mais sistêmicos, permanecem fora do campo do dizível. É a partir dessa engrenagem narrativa, que transforma choque em rotina e indignação em ruído, que este texto propõe ler o presente.
Este ensaio parte dessa recorrência para investigar não a suposta apatia social, mas o modo como a indignação é produzida, administrada e neutralizada dentro das narrativas legítimas do que aqui chamamos de mitocracia.
Escândalo e forma narrativa
Precisamos esclarecer que o escândalo não nasce apenas de um acontecimento grave. Ele emerge quando um fato é enquadrado como narrativa, apresentando um vilão reconhecível, uma vítima identificável, um dano claro e uma expectativa de desfecho. O escândalo é, antes de tudo, uma história curta, com começo, meio e, sobretudo, uma promessa de fim.
Nesse sentido, o escândalo funciona como uma narrativa de exceção dentro do cotidiano. Ele interrompe o fluxo normal da vida pública, produz choque moral e convoca posicionamento. Mas, justamente por isso, precisa ser temporalmente delimitado. Um escândalo que não termina deixa de ser escândalo e se torna estrutura, mas estruturas não mobilizam indignação contínua.
É aqui que a mitocracia opera com eficiência. Em um regime no qual o poder se exerce também pela administração das narrativas legítimas, a indignação não é simplesmente reprimida. Ela é organizada, canalizada e exaurida.
Como afirma Michel Foucault, o poder moderno raramente se impõe apenas pela proibição. Ele opera por dispositivos que produzem sujeitos, afetos e regimes de visibilidade. O escândalo, nesse contexto, não é um erro do sistema, mas um de seus mecanismos reguladores.
É por isso, que analisando essas narrativas, podemos identificar, com pequenas variações, um ciclo narrativo recorrente:
- Denúncia: um fato é apresentado como revelação. O vocabulário é de ruptura: absurdo, inadmissível, chocante;
- Choque moral: a esfera pública reage. Há indignação, compartilhamentos, pronunciamentos emocionados. O tema parece incontornável;
- Relativização: surgem explicações técnicas, disputas de contexto, acusações de exagero ou instrumentalização política. O problema se complexifica, mas de modo paralisante;
- Esquecimento administrado: o assunto perde centralidade sem ter sido resolvido. Ainda assim, torna-se narrativamente esgotado.
Esse ciclo não depende de uma conspiração centralizada. Ele emerge da articulação entre dispositivos jornalísticos, lógicas algorítmicas, tempos institucionais e expectativas afetivas do público. E o resultado é um equilíbrio instável, uma vez que, mesmo que a sociedade se perceba crítica e vigilante, as estruturas profundas permanecem intocadas.
Moral confortável e herói descartável
Para que um escândalo funcione narrativamente, ele precisa ser moralmente legível. Isso implica reduzir problemas estruturais a personagens identificáveis. Os mais comuns são o político corrupto, o gestor incompetente ou o empresário ganancioso. Há um ganho imediato de clareza, mas ao custo elevado do deslocamento da crítica do sistema para o indivíduo.
Isso já havia sido notado por Roland Barthes, que destaca como os mitos modernos transformam processos históricos em dramas morais, naturalizando estruturas ao personalizar responsabilidades. O escândalo cumpre um função semelhante ao oferecer um vilão sacrificial que permite à sociedade preservar o mito de normalidade.
Quando o personagem cai, seja sendo punido, absolvido ou simplesmente substituído por outro tema, a narrativa se encerra. O público experimenta uma sensação de catarse e o desconforto estrutural é suspenso.
Mas é importante dizer que nem todo problema pode ser convertido em escândalo. Questões como desigualdade persistente, racismo, precarização do trabalho, colapso ambiental ou violência policial cotidiana resistem à forma curta do escândalo. Elas não oferecem vilões isolados nem desfechos rápidos e, por isso, exigem narrativas longas, cumulativas e conflituosas.
Dessa forma, quando aparecem, tendem a ser enquadradas como episódios: um caso emblemático, um dado alarmante ou uma tragédia pontual. Mas a estrutura que os produz permanece fora de foco. E aqui opera a visibilidade intermitente, um mecanismo central da mitocracia. O tema comove por um tempo e então desaparece, mesmo que não haja uma censura direta, devido à saturação emocional e à substituição narrativa.
Afinal, como observou Hannah Arendt, a esfera pública depende de um mundo comum relativamente estável para que a ação política seja possível. Quando os problemas aparecem apenas como choques episódicos, sem continuidade narrativa, o mundo comum se fragmenta. O resultado não é mobilização permanente, mas fadiga moral.
O recurso escasso da indignação
Por mais poderoso que seja a indignação, ela também é um recurso limitado, que exige energia psíquica, atenção e investimento emocional. Em um ambiente saturado de estímulos, a indignação se torna ainda mais disputada por múltiplas causas, marcas, movimentos e atores políticos.
Os dispositivos mitocráticos aprenderam a operar com essa escassez. Em vez de silenciar tudo, permitem e até incentivam picos de indignação, desde que eles sejam autolimitados. O excesso de choques sucessivos não produz consciência crítica cumulativa, mas anestesia.
Nesse sentido, o esquecimento não é simples falha de memória coletiva, mas uma condição funcional de um sistema que precisa seguir operando apesar de suas contradições. O escândalo resolve-se quando deixa de incomodar.
Esse processo não ocorre apenas no plano macro. Ele atravessa os biomitos pessoais, as histórias que contamos sobre nós mesmos para sustentar uma identidade coerente. E reconhecer continuamente que vivemos em estruturas injustas, violentas ou insustentáveis exigiria reescrever profundamente essas narrativas de si.
O ciclo do escândalo, então, nos oferece a saída psíquica de indignar-se pontualmente, o que permite preservar a autoimagem de sujeito moralmente atento sem enfrentar o custo de uma revisão existencial mais profunda. O choque é vivido, mas a transformação é adiada.
E nada disso conduz a uma conclusão redentora, uma vez que também não há como romper definitivamente com esse ciclo. A mitocracia não é um erro corrigível, mas o ambiente narrativo em que vivemos.
O que se pode desenvolver é letramento narrativo, a capacidade de reconhecer os ciclos, identificar seus limites e resistir à tentação do encerramento fácil. Isso não significa rejeitar a indignação, mas recusar sua forma administrada. Neste aspecto, perguntas simples, mas incômodas, podem funcionar como ferramentas mínimas:
- Este escândalo aponta para qual estrutura?
- O que precisaria mudar para que ele deixasse de se repetir?
- Quem se beneficia quando o tema desaparece sem deixar rastros institucionais?
É por isso que o gesto político mais difícil hoje não é indignar-se, mas permanecer com o problema quando a narrativa já foi encerrada. E a pergunta que fica, sem resposta final, é esta:
Quais escândalos do nosso presente já foram resolvidos apenas no mundo das ideias, enquanto a realidade segue intacta?
Matheus Prado é professor, escritor, cineasta e crítico de cinema. Atualmente cursa um mestrado e Letras, com foco em Literatura. Acredita que a vida é um mar profundo e que devemos nos aventurar além da superfície. Escreveu e dirigiu dois longas-metragens e vários curtas.