Em seu novo livro, Matheus Prado afirma que a crise política é, na verdade, uma crise de narrativas legitimadas

Em entrevista exclusiva, Matheus Prado apresenta a tese de que o poder contemporâneo não se exerce apenas por leis e instituições, mas pela administração das narrativas que definem o que é realidade.

Vivemos uma época em que todos parecem disputar versões da realidade. A cada dia, novas polêmicas surgem nas redes sociais, líderes políticos mobilizam seus públicos por meio de discursos emocionais, instituições são acusadas de parcialidade e cidadãos comuns se veem imersos em debates que já não se limitam a opiniões, mas a mundos distintos.

A sensação de fragmentação é generalizada. Mas e se o problema não estiver apenas nas divergências visíveis? E se estivermos diante de algo mais estrutural?

Esta é a hipótese central de A Era da Mitocracia, novo livro do escritor, jornalista e cientista político Matheus Prado. Em vez de tratar o fenômeno contemporâneo como simples polarização ou guerra de narrativas, Prado propõe um diagnóstico mais profundo:

Vivemos sob um regime no qual o poder se exerce, antes de tudo, pela administração das histórias legitimadas como realidade.

Para ele, narrativas não são apenas discursos ou opiniões, mas estruturas de sentido que organizam nossa percepção do mundo, distribuem papéis morais e delimitam o que consideramos possível, aceitável ou impensável. Ao longo do livro, o autor desenvolve conceitos como Mito, Metamito, Biomito, Dispositivos Mitocráticos e Letramento Narrativo, construindo um modelo analítico que busca explicar por que fatos muitas vezes não convencem, mas histórias convertem.

Nesta entrevista exclusiva, Matheus Prado detalha as bases de sua teoria, responde a críticas antecipadas e explica por que, na sua visão, ninguém está fora da Mitocracia. Leia, abaixo, a entrevista completa:

O que é, afinal, a “Mitocracia”? Estamos falando de propaganda, ideologia ou algo diferente?

A Mitocracia é o nome que dou a um regime de poder cujo centro de gravidade não está apenas em leis, armas, orçamentos ou cargos, mas na administração do que passa por realidade social. Não se trata de propaganda no sentido clássico, como uma mentira deliberada para enganar, nem de ideologia como um conjunto explícito de ideias políticas.

A Mitocracia é mais profunda e, justamente por isso, mais eficiente. É o arranjo em que narrativas legitimadas organizam o que as pessoas consideram evidente, natural e indiscutível, definindo antecipadamente o campo do que é possível dizer e pensar.

A propaganda costuma ser episódica e visível, mas a Mitocracia funciona melhor quando é invisível, quando suas histórias parecem apenas “o jeito como o mundo é”.

Nesse sentido, ela opera por meio de mitos, isto é, narrativas culturais tratadas como verdade fundamental, e por Metamitos, que são conjuntos articulados de mitos que formam a infraestrutura narrativa de uma época. Quem controla esta infraestrutura não controla só opiniões, mas também as perguntas que podem ser feitas sem parecer insanas, os enquadramentos que parecem razoáveis e as categorias morais prontas para uso.

Seu livro parte da ideia de que ninguém está fora da Mitocracia. Isso significa que não existe neutralidade possível no debate público?

A palavra “neutralidade” costuma esconder duas pretensões distintas. Uma é a honestidade, isto é, o esforço de não distorcer fatos e de argumentar com boa-fé. A outra é a fantasia de um ponto de vista fora do mundo, como se alguém pudesse observar a política sem estar implicado em narrativas e valores. Esta segunda pretensão, na prática, é impossível. Todo ser humano organiza a experiência narrativamente, e isso vem antes da escolha consciente de uma posição. O cérebro pergunta se algo faz sentido muito antes de perguntar se é verdade. A Mitocracia se apoia nessa estrutura básica.

Então, o livro não se baseia na ideia de que tudo é relativo ou que fatos não importam, mas em algo mais desconfortável e mais útil: mesmo quando alguém se considera neutro, já está operando dentro de um repertório narrativo que atribui papéis morais e define o que merece indignação. Reconhecer isso não elimina o conflito público, mas torna o debate mais honesto, porque desloca a disputa do teatro da pureza moral para o terreno real das narrativas em operação.

Muitos autores falam hoje em “guerra de narrativas”. Em que medida sua proposta vai além dessa ideia de conflito entre versões da realidade?

A expressão “guerra de narrativas” descreve bem um fenômeno visível, o conflito permanente de enredos concorrentes. O problema é que, se ficarmos só nessa imagem, corremos o risco de reduzir a política a uma arena de versões e esquecer uma camada anterior, que é o próprio chão em que as versões se tornam críveis.

O debate sobre a Mitocracia que se centra apenas em entender quais narrativas disputam atenção, mas em descobrir quais estruturas tornam certas narrativas mais prováveis e outras quase impensáveis.

Em outras palavras, a guerra é o sintoma e a Mitocracia é o regime. E o regime não é só a disputa, mas a infraestrutura que define critérios de legitimidade, os dispositivos que distribuem prestígio narrativo e os mecanismos que naturalizam certos enquadramentos como se fossem o próprio mundo. Este deslocamento muda a qualidade da análise e diminui a tentação de transformar o debate em torcida.

Você afirma que somos constituídos por Metamitos anteriores ao nosso nascimento. O que são Metamitos e como eles moldam aquilo que consideramos “normal” ou “natural”?

Metamitos são grandes roteiros de época, conjuntos articulados de mitos que funcionam como atmosfera mental coletiva. Eles não dizem apenas o que aconteceu, mas o que faz sentido acontecer. Um Metamito não precisa ser proclamado. Ele aparece nos currículos escolares, nas expectativas de carreira, nas formas de vergonha e orgulho, nas piadas aceitáveis e nas indignações obrigatórias. Ele molda o normal porque ensina, sem precisar ensinar, o que é plausível.

No Brasil contemporâneo, por exemplo, convivem Metamitos poderosos e, muitas vezes, contraditórios. Há o Metamito da Meritocracia Global, que transforma desigualdade em prova de virtude ou falha pessoal, e há Metamitos identitários, que interpretam a história como disputa de grupos por reconhecimento e reparação. Há o Metamito do Brasil Vira-Lata, que oscila entre cinismo e fatalismo.

Antes que uma pessoa forme opinião política, ela já foi treinada por esses roteiros a sentir certas coisas como óbvias. É disso que se trata quando digo que ninguém nasce fora da Mitocracia.

A Mitocracia é um regime político no sentido tradicional?

É um regime no sentido analítico, não no sentido constitucional. Não existe Mitocracia no Diário Oficial. O termo serve para nomear uma forma de exercício de poder que atravessa regimes formais distintos.

Ela pode operar em democracias e em autoritarismos, com estilos diferentes. Em uma democracia, tende a se manifestar como competição por enquadramentos legitimados, por autoridade moral e por monopólio simbólico de certos temas. Em um autoritarismo, ela tende a se consolidar como narrativa única e eliminação ativa de histórias rivais.

O ponto decisivo é que o poder narrativo não é apenas um sistema de comunicação, uma vez que também define a arquitetura da percepção pública. E essa arquitetura é difusa porque se espalha por instituições, tecnologias, incentivos econômicos, métricas de visibilidade e rituais sociais. Esse é o motivo de ela ser tão difícil de enfrentar com soluções simples. Não há um único centro de comando, há uma ecologia de dispositivos.

Qual é a diferença entre narrativa, mito e manipulação? Toda narrativa é suspeita?

Narrativa é a forma básica de organização do sentido. É como a mente conecta eventos, estabelece causalidade e atribui papéis morais. Mito é um tipo particular de narrativa, uma narrativa cultural tratada como verdade fundamental, capaz de orientar julgamentos sem exigir comprovação empírica direta. Manipulação é um uso estratégico, e muitas vezes cínico, de narrativas para produzir adesão, obediência ou confusão.

Nem toda narrativa é suspeita, porque sem narrativa não existe orientação. A suspeita saudável começa quando uma narrativa se apresenta como a própria realidade, sem lacunas, sem ambiguidades, e quando se torna moralmente blindada contra perguntas.

Um mito pode ter elementos verdadeiros e ainda assim operar como mito, porque seu núcleo não é a falsidade, é a função de estabilizar sentido e reduzir complexidade. O livro não propõe paranoia narrativa. Propõe discernimento.

Seu livro dialoga com autores como Hannah Arendt, Marshall McLuhan e Joseph Campbell. Como essas tradições ajudam a compreender o mundo hiperconectado de hoje?

Arendt ajuda a perceber que política não é apenas a administração, mas também a construção de uma noção de mundo comum. Quando esse mundo comum se fragmenta, quando a esfera pública vira um campo de versões incomunicáveis, o problema não é só polarização, mas também a perda da realidade compartilhada.

McLuhan ajuda a entender por que a tecnologia não é neutra. O meio reorganiza o ambiente mental, altera ritmos, incentiva certos tipos de narrativa e penaliza outros. E Campbell ajuda a reconhecer estruturas mitológicas recorrentes, sobretudo a tentação do herói salvador, que reaparece em versões modernas, seja na figura do líder providencial, seja na biografia moral do político outsider.

Essas tradições, juntas e aliadas com algumas outras, permitem olhar para além do conteúdo imediato das brigas e enxergar as formas que organizam as brigas. Forma narrativa é poder. Forma tecnológica é poder. E forma de mundo comum também é poder.

Em que medida as redes sociais intensificaram a Mitocracia? Elas criaram algo novo ou apenas tornaram visível algo que sempre existiu?

As redes não inventaram a disputa narrativa, mas alteraram a física dessa disputa. Elas transformaram visibilidade em moeda, indignação em combustível e simplificação em vantagem competitiva. Em um ambiente governado por métricas de engajamento, narrativas que oferecem heróis e vilões claros e soluções rápidas ganham tração. O que é ambíguo, lento, técnico ou trágico perde espaço.

Isso não significa que as pessoas ficaram mais burras, apenas que o ambiente recompensa certos formatos de sentido.

Ao mesmo tempo, as redes também tornaram visível um aspecto estrutural da Mitocracia. Elas mostram, em tempo real, como narrativas se propagam, como Biomitos se alinham a tribos, como slogans substituem argumentos e como a reputação vira campo de batalha. Em vez de um debate público mediado apenas por instituições tradicionais, temos uma esfera pública altamente reativa, em que dispositivos técnicos amplificam impulsos humanos antigos.

O livro fala em “dispositivos mitocráticos”. Que tipo de instituições ou tecnologias funcionam como máquinas de produção de realidade?

Dispositivo mitocrático é qualquer arranjo estável que produz, legitima, distribui e naturaliza narrativas. Isso inclui escolas, universidades, imprensa, entretenimento, publicidade, tribunais, igrejas, partidos, plataformas digitais, agências de checagem, influenciadores, métricas de reputação, mecanismos de denúncia e banimento, e até práticas rotineiras, como rituais corporativos de cultura organizacional.

A ideia central é que o poder narrativo não depende só de um grande contador de histórias, mas também de estruturas que fazem uma história parecer razoável, repetível e socialmente segura.

Muitos indivíduos não acreditam no que dizem, mas repetem porque o dispositivo recompensa a fala ou porque pune o silêncio. Esse é um ponto decisivo para entender por que narrativas se estabilizam sem exigir conspiração.

Se todos estamos imersos em narrativas, qual é o risco maior: a mentira explícita ou a história parcialmente verdadeira que organiza nossa percepção?

Este é um ponto muito interessante. A mentira explícita é perigosa, mas costuma ser mais fácil de identificar quando há tempo disponível e se usa método correto. O risco maior é a narrativa parcialmente verdadeira que oferece coerência moral total. Ela seleciona fatos reais, recorta, hierarquiza e, com isso, produz um mundo interpretativo que parece completo. O problema não é o que ela mostra, mas o que ela esconde.

A narrativa eficaz não precisa inventar. Ela precisa enquadrar. Por isso, o livro insiste que a disputa contemporânea não é apenas por fatos, mas por molduras. Quem escolhe a moldura escolhe, o sentido. E o sentido, em política, costuma importar mais do que a precisão factual isolada, porque organiza pertencimento, medo, orgulho e indignação.

Você propõe o conceito de “letramento narrativo”. Isso é uma forma de resistência? Ou estamos condenados a viver permanentemente dentro da Mitocracia?

Letramento narrativo é um tipo de resistência consciente, mas não é a libertação total. Não existe vida humana fora de narrativas, do mesmo modo que não existe linguagem fora de estruturas. O que existe é a possibilidade de reduzir a ingenuidade, aumentar a autoconsciência e ampliar repertório.

Um analfabeto narrativo é alguém que vive dentro de histórias sem perceber que são histórias, e por isso confunde o enredo com o mundo. Um sujeito letrado narrativamente passa a reconhecer padrões, identificar mitos em operação, perceber como Biomitos pessoais se conectam a Metamitos coletivos e compreender a ação dos dispositivos.

Isso não resolve tudo porque poder não é só percepção, é também instituição, economia, coerção e incentivos. Mas sem este letramento, toda ação política tende a ser apenas repetição de clichês ou histeria. Com ele, ao menos existe chance de coautoria crítica, individual e, sobretudo, coletiva.

Seu livro é político? Ele toma partido?

O livro é político no sentido inevitável, porque fala da forma como o poder opera. Mas não toma partido no sentido de escolher um lado, oferecer um pacote ideológico ou de substituir a reflexão pela torcida.

O que tento fazer é devolver complexidade ao debate sem cair em relativismo, e devolver critério sem cair em moralismo. Isso significa criticar narrativas hegemônicas onde quer que estejam, seja em ambientes progressistas, conservadores ou tecnocráticos.

Meu compromisso, se é que posso usar este termo, não é com um campo de análise, mas com um diagnóstico mais honesto sobre como a realidade pública é construída. Isso pode incomodar ambos os lados e eu considero este incômodo um sinal de que o livro está no caminho certo, porque a Mitocracia se alimenta justamente de certezas automáticas.

O Brasil é um caso particularmente mitocrático ou isso é um fenômeno global?

É global, mas o Brasil tem características que tornam o fenômeno especialmente visível. Uma delas é a tradição de personalismo e de biografias heroicas na política, o que facilita a transformação do debate em saga moral.

Outra característica é a fragilidade de confiança institucional, que aumenta a dependência de narrativas para preencher lacunas de credibilidade. As pessoas perderam a fé no sistema como um todo e buscam desesperadamente por uma meneira de sair dele, nem que, para isso, precisem entrar em outro sistema.

E há também um outro fato interessante e particular, que é a coexistência de múltiplos mitos nacionais que se chocam, como a cordialidade, o jeitinho, o vira-latismo, o messianismo político e as promessas recorrentes de refundação.

Ao mesmo tempo, o Brasil é um laboratório excelente porque acelera tendências globais. Aqui, a mistura de mídia tradicional, redes sociais e cultura de WhatsApp cria circuitos narrativos extremamente rápidos, nos quais reputações sobem e caem como eventos políticos. Isso faz a Mitocracia aparecer sem disfarce e, ainda assim, ser quase totalmente ignorada.

Com base nisso, vivemos uma crise da democracia ou uma crise dos Metamitos que sustentavam a democracia?

A verdade é que as duas coisas se retroalimentam, mas a crise mais profunda é a crise dos Metamitos que davam sustentação simbólica à democracia liberal. A democracia depende de instituições, mas também depende de um conjunto mínimo de crenças compartilhadas sobre legitimidade, alternância de poder, derrota aceitável e adversário como parte do jogo, não como inimigo a ser exterminado. Quando esses pressupostos se dissolvem, as instituições continuam de pé, mas ficam ocas, porque passam a ser interpretadas como armas de facção.

A democracia entra em crise quando o mundo comum entra em crise. E o mundo comum entra em crise quando narrativas deixam de produzir um horizonte de realidade compartilhada. A Mitocracia não destrói apenas consensos, ela destrói a gramática do desacordo civilizado. Este é um dos pontos centrais do livro.

O que o leitor deve esperar ao abrir “A Era da Mitocracia”? Um diagnóstico, uma teoria ou uma provocação intelectual?

Acredito que os três, ao mesmo tempo. O leitor deve esperar uma teoria que nasce de um diagnóstico e que se mantém como provocação.

Diagnóstico, porque descreve uma forma contemporânea de poder que muitos sentem, mas poucos conseguem nomear com precisão. Teoria, porque propõe conceitos operacionais, distinções claras e um modelo que pode ser aplicado a casos concretos. E provocação, porque a ideia mais incômoda não é que “os outros” são manipulados, mas que todos nós somos constituídos por narrativas anteriores, e que nossas certezas mais íntimas podem ser efeitos de dispositivos.

Não existe uma saída simples, mas existe um entendimento. Se o poder opera narrativamente, então resistência começa pelo letramento narrativo. Precisamos aprender a ler as histórias que nos leem.

matheusprado.maori@gmail.com | Web |  + posts

Matheus Prado é professor, escritor, cineasta e crítico de cinema. Atualmente cursa um mestrado e Letras, com foco em Literatura. Acredita que a vida é um mar profundo e que devemos nos aventurar além da superfície. Escreveu e dirigiu dois longas-metragens e vários curtas.

Referências Bibliográficas

os mitos que organizam a vida pública

O Portal MITOCRACIA nasceu da convicção de que a vida pública não é organizada apenas por fatos, leis ou decisões formais, mas também, de modo decisivo, pelas narrativas que dão sentido ao que uma sociedade passa a reconhecer como real, legítimo e inevitável. Somos um espaço ensaístico de filosofia, ciência política e teoria social, dedicado à leitura crítica do presente com método, rigor conceitual e abertura ao dissenso. Nossos textos partem, quase sempre, de perguntas simples: quais histórias estão sendo contadas, quem as conta, o que elas tornam visível e o que empurram para a sombra? Não oferecemos respostas finais, mas ferramentas de leitura. Em um tempo saturado de ruído, o Portal MITOCRACIA propõe pausa, análise e responsabilidade intelectual diante das narrativas que organizam toda a estrutura da nossa vida pública.

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