A Biblioteca da Eternidade: projeto literário une arqueologia, lendas indígenas e paisagens de Mato Grosso

A proposta vai muito além do entretenimento. O projeto nasce com o objetivo educacional declarado de reencantar crianças e adolescentes com o conhecimento, utilizando o formato que mais atrai essa geração: histórias envolventes. Segundo o autor, Matheus Prado, o livro é apenas o início de uma jornada que conecta aventura, ciência, geografia, mitologia e identidade brasileira.

Imagine um lugar onde rios escondem segredos esquecidos, onde montanhas guardam símbolos gravados há milênios, e onde ruínas coloniais convivem com as histórias dos povos originários… tudo isso sem sair do Brasil. Parece fantasia? Não é.

O estado de Mato Grosso, no coração da América do Sul, é um dos territórios mais ricos em histórias não contadas, culturas apagadas e tesouros da memória. E foi justamente nesse cenário real que nasceu a série Maíra Ventura.

Criada pelo escritor e ilustrador mato-grossense Matheus Prado, a série é uma proposta ousada e encantadora: transformar o Brasil em cenário principal de uma narrativa literária capaz de unir ficção e conhecimento histórico, tudo sob o olhar de uma protagonista feminina corajosa, brasileira e profundamente ligada às suas raízes.

Maíra Ventura e a Biblioteca da Eternidade | Créditos: Matheus Prado

Em entrevista exclusiva para o site da série, o autor explicou que:

O Brasil sempre foi retratado como coadjuvante nas grandes histórias. A ideia de criar a Maíra surgiu da vontade de colocar nosso território no centro do palco, mostrando que nossas lendas, nossas paisagens e a sabedoria ancestral dos povos indígenas têm tanto potencial narrativo quanto qualquer pirâmide egípcia ou castelo europeu.

A proposta vai muito além do entretenimento. O projeto já nasceu com um objetivo educacional declarado: encantar crianças e adolescentes com o conhecimento, utilizando o formato que mais atrai essa geração: histórias envolventes.

O livro é apenas o início de uma jornada que conecta aventura, ciência, geografia, mitologia e identidade brasileira.

Maíra Ventura e JP desbravam Mato Grosso | Ilustração: Matheus Prado

Quem é Maíra Ventura?

Segundo a sinopse oficial, Maíra Ventura é professora de História na Unemat, mas sua sala de aula vai muito além da universidade. Criada entre trilhas, ruínas e lendas indígenas, ela aprendeu desde cedo que algumas histórias que parecem mitos podem, na verdade, esconder verdades esquecidas. Determinada, ética e corajosa, Maíra não hesita em arriscar a própria segurança para proteger o que considera sagrado… para o desespero do seu melhor amigo, o desastrado porém brilhante arqueólogo João Pedro “JP” Whitlock.

Quando JP encontra um antigo diário pertencente a um bandeirante do século XVIII, uma grande reviravolta acontece. Isso porque o manuscrito descreve um lugar sagrado escondido no coração de Mato Grosso. Um local envolto em mistério, marcado por símbolos indígenas e memórias ancestrais.

Mas Maíra logo descobre que eles não são os únicos interessados nesse enigma. Uma organização secular sombria chamada Círculo do Eclipse parece estar disposta a tudo para colocar as mãos no documento e desvendar os mapas que ele guarda.

Em uma corrida contra o tempo, Maíra e JP iniciam uma expedição repleta de perigos, armadilhas e escolhas morais. Cada passo revela fragmentos de uma história enterrada pela floresta, onde as fronteiras entre o real e o mítico começam a se confundir. Maíra não está em busca de fama ou fortuna. Ela quer compreender e proteger o que realmente importa.

Com uma mistura única de raciocínio lógico, espiritualidade e preparo tático, Maíra Ventura se torna uma heroína diferente de tudo o que você já viu. E talvez, ao seguir seus passos, o leitor também descubra que as maiores aventuras podem estar escondidas bem aqui, em Mato Grosso.

Maíra encontra sinais de uma civilização antiga | Ilustração: Matheus Prado

Uma heroína mato-grossense

A protagonista da série é Maíra Ventura, uma historiadora e ex-militar criada em Cuiabá, filha de uma indígena Bororo e de um curador de museu. Ela foi criada entre expedições arqueológicas e bibliotecas cheias de histórias reais do Brasil profundo.

Maíra foi fortemente inspirada em pessoas reais, algumas delas, infelizmente, totalmente desconhecidas para a maioria das pessoas:

  • Zélia Nuttall (1857–1933): Arqueóloga e etnóloga nascida no México e naturalizada norte-americana, foi uma das primeiras mulheres a estudar civilizações mesoamericanas, ainda no século XIX. Era especializada em culturas astecas e pré-colombinas e sua atuação na América Latina inspirou várias mulheres brasileiras a seguir na arqueologia.
  • Percy Fawcett (1867–1925?): Militar, geógrafo e explorador britânico. Ficou conhecido por suas expedições no Brasil em busca da “Cidade Perdida de Z”, uma lenda que inspirou gerações e influenciou diretamente a cultura pop mundial.
  • Marie Curie (1867–1934): Física e química polonesa, primeira mulher a ganhar um Nobel e única a ganhar dois. Representa a cientista que ultrapassou todas as barreiras da sua época, ultrapassando os limites de gênero, disciplina e zona de conforto.
  • Claude Lévi-Strauss (1908–2009): Antropólogo francês que viajou por diversas etnias indígenas brasileiras na década de 1930 e revolucionou o pensamento antropológico no mundo. Sua obra Tristes Trópicos é uma referência sobre o Brasil profundo.
  • Niède Guidon (1933-): Arqueóloga brasileira famosa por suas escavações no Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí. Dedicou a vida à proteção do patrimônio arqueológico nacional. Com coragem e firmeza, desafiou teorias eurocêntricas sobre a ocupação da América.
  • Yvonne Maggie (1944-): Antropóloga e professora da UFRJ, referência nos estudos sobre religiões afro-brasileiras e culturas tradicionais. Trabalha para ampliar a compreensão do Brasil profundo, combatendo preconceitos e simplificações culturais.
Coronel Percy Fawcett (esquerda), em Cáceres (MT) | Créditos: Editora Record / Reprodução

Inspirada nessas pessoas, Maíra é, ao mesmo tempo, forte e analítica. Seu maior talento é conectar pistas do passado a partir de pequenos vestígios culturais. Segundo o autor:

Maíra representa meninas e meninos que nunca se viram como protagonistas de grandes aventuras. Ela é curiosa, determinada e, principalmente, respeitosa com aquilo que encontra.

O primeiro livro de uma série

Com lançamento nacional marcado para 15 de agosto de 2025, o livro Maíra Ventura e a Biblioteca da Eternidade marca o início da série literária voltada para o público jovem (dos 12 aos 17 anos), mas que promete encantar leitores de todas as idades.

A trama mostra a primeira das grandes aventuras da historiadora Maíra Ventura e gira em torno da busca por um artefato milenar que pode levar à existência de uma misteriosa biblioteca sagrada escondida na floresta. Embora a história seja fictícia, todas a histórias, mitos e locais citados são reais e pesquisados, como a Chapada dos Guimarães, a Cidade de Pedra em Rondonópolis e as ruínas de Vila Bela da Santíssima Trindade.

O enredo se constrói sobre um alicerce de referências arqueológicas, linguísticas e antropológicas, com liberdade poética, mas compromisso com a veracidade cultural. Segundo Matheus Prado:

Cada elemento do livro foi inspirado em fontes reais. Sempre acreditei que as melhores histórias são aquelas que conseguem unir ficção e realidade para criar uma nova forma de ver o mundo. Isso não é mentir, mas analisar o mundo sob um prisma que, de outra forma, seria impossível. Os maiores clássicos da literatura fazem isso. E não que eu seja tolo o bastante para achar que posso me colocar entre eles, mas, como autor, esse é, claro, o meu desejo.

Ao misturar ficção com fatos históricos, Maíra Ventura e a Biblioteca da Eternidade convida os leitores a refletirem: de quem é o saber? Onde estão os vestígios das civilizações que nos antecederam? E será que a verdadeira aventura não está exatamente aqui, onde vivemos?

Maíra e JP desbravam a Caverna Kiogo Brado, em Chapada dos Guimarães | Ilustração: Matheus Prado

Uma jornada para leitores curiosos

Mais do que uma história de aventura, o livro Maíra Ventura e a Biblioteca da Eternidade é uma porta de entrada para a valorização do nosso território e das vozes que o habitam há milhares de anos. A obra trata de temas como:

  • Cosmologias não ocidentais;
  • Empoderamento e respeito intercultural;
  • Sabedoria ancestral e oralidade indígena;
  • Contrabando de artefatos históricos;
  • Ética na arqueologia e muitos outros.

Matheus Prado comenta:

A Biblioteca da Eternidade é uma metáfora, mas também uma possibilidade. Ela representa todos os saberes que não cabem nos livros de história tradicional. E o que eu mais quero com esse projeto é que os jovens olhem para o Brasil e para Mato Grosso com admiração, como quem descobre um tesouro escondido no próprio quintal.

O objetivo central do projeto é que ele seja adotado por escolas, amparado por um material didático de apoio e sugestões de leitura crítica para professores. A série contará com outros volumes, cada um explorando um novo mistério em Mato Grosso e em outros territórios brasileiros.

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Referências Bibliográficas

PRADO, Matheus. Maíra Ventura e a Biblioteca da Eternidade. Sinop: Cinemagem Company, 2025.
GALLO, Sílvio. Ética e Cidadania: Caminhos da Filosofia. São Paulo: Moderna, 2004.
SILVA, Aracy Lopes da; GRUPIONI, Luís D. (Org.). Povos Indígenas no Brasil: muitos povos, muitas histórias. Brasília: MEC, 2002.
HEMMING, John. Povos da Floresta: os índios do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
CUNHA, Manuela Carneiro da (Org.). História dos Índios no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
Entrevista com Matheus Prado, autor de Maíra Ventura e a Biblioteca da Eternidade, concedida em julho de 2025.

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